Exposição coletiva investiga trabalho, fome e desejo a partir de um objeto popular brasileiro que acompanha a maioria dos trabalhadores braçais.
Companheira do operário no chão de fábrica e do trabalhador em trânsito pelas grandes cidades, a marmita serviu de emblema político. Já na campanha presidencial de Eurico Gaspar Dutra, em 1945, quando o “marmiteiro” virou personagem de um dos jingles mais lembrados da história eleitoral nacional. De lá para cá, o recipiente nunca mais saiu de cena: condensou, ao mesmo tempo, a precariedade e a dignidade do trabalho, a escassez e a garantia do sustento. Na contemporaneidade, a marmita migrou do universo fabril para as academias e os aplicativos de dieta. Assim, foi convertida em mercadoria da cultura fitness e da gestão do corpo.
Na língua falada, ganhou ainda um sentido inesperado: virou gíria para vínculos amorosos informais e relações não monogâmicas. Entre o alimento e o erotismo, o utensílio se transformou em síntese de fantasias sociais brasileiras. O ponto de partida da exposição é a coleção de marmitas em porcelana, reunida ao longo dos anos pela galerista Anita Schwartz. Diante dessas peças, a curadoria formula as perguntas organizadoras da mostra. Como um objeto criado pela necessidade atravessa fronteiras de classe? O que acontece quando um instrumento de sobrevivência entra no circuito do colecionismo, do design e da arte?
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Debates contemporâneos sobre escassez, valor e fome simbólica
Artistas como Waltércio Caldas, Lenora de Barros, Farnese de Andrade e Ivens Machado revelam como objetos cotidianos podem condensar memória, imaginação e relações de poder. Em diálogo com essa genealogia, a produção recente de Andréa Hygino reinscreve palavras como “arroz”, “feijão” e “carne” em debates contemporâneos sobre escassez, valor e fome simbólica.
No campo das referências, a coletiva evoca dois textos fundadores do pensamento brasileiro sobre fome e cultura. Em Estética da Fome, Glauber Rocha defendia que a carência material da América Latina era mais que econômico, trata-se de uma experiência histórica geradora de linguagem e invenção. Décadas antes, o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, já havia proposto o ato de comer e devorar como operação múltipla. Ela contempla ao mesmo tempo biologia, política e simbologia. Na mostra, a fome se expande para além do prato: fome de reconhecimento, de contato, de prazer, de pertencimento e de futuro.
Apesar de algumas notícias favoráveis, a desigualdade persiste
O tema continua no centro do debate público. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025. Está com menos de 2,5% da população em situação de subalimentação no triênio 2022-2024. Os números do IBGE, porém, indicam que a desigualdade persiste. Em 2024, cerca de 48,9 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha da pobreza, dos quais, aproximadamente 7,4 milhões em extrema pobreza. Em 2023, cerca de 64,2 milhões de pessoas moravam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar.
A exposição se situa neste intervalo entre avanço e ameaça. A indústria do bem-estar, os regimes de controle do corpo e a exposição permanente dos estilos de vida nas redes transformaram o ato de comer. Hoje ele se transformou em disputa estética, econômica e afetiva. Ao reunir artistas em torno de um signo aparentemente banal, Marmita propõe um retrato das economias materiais e emocionais do Brasil. Entre o recipiente e o corpo, entre a refeição e o desejo, a mostra persegue aquilo que circula, transborda e escapa a qualquer tentativa de contenção.
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Informações Marmita
Local: Anita Schwartz Galeria de Arte, r. José Roberto Macedo Soares, 30, Gávea
Data: até 08 de agosto, de segunda a sexta, de 10h às 19h, sábado, de 12h às 18h
Ingresso: Entrada Gratuita




