Apresentações contam com ritmos afrodiaspóricos que passeia das batidas do funk carioca ao bregão oriundo de Recife.
O Teatro Angel Vianna, na Tijuca, recebe pela primeira vez o espetáculo de dança “IRÊ“. Classificado pelos Yorubás como a representação de sorte, o nome escolhido é referência à ideia de ser possível a construção da própria sorte no mundo. No primeiro trabalho solo para os palcos, Nyandra Fernandes passeia sobre a própria trajetória artística com a dança até os dias de hoje. Ela utiliza o espetáculo para se debruçar sobre a possibilidade de falar sobre si. Além disso, trata de realidades socioculturais, religiosidade, dores e prazeres.
A peça é, para a artista, um ato de coragem e uma forma de se colocar em cena como protagonista da própria narrativa. “O espetáculo Irê nasceu da vontade de me reconstruir e me recolocar enquanto intérprete, criadora e performer na cena. Ao longo da minha trajetória de quase 15 anos de estudo de corpo e dança, e muitos deles dedicados a construir na coletividade, que é parte muito importante de quem eu sou, percebi que ainda havia lugares não acessados por mim. E para construir esse solo, eu me revisito, pesquiso meu íntimo e vou dançando esses atravessamentos que me fazem ser quem sou hoje“, explica Nyandra.
Embate constante com o espelho
Durante a pesquisa, Nyandra conta: nas salas de ensaio o espelho passou a se tornar um embate e olhar para a própria imagem virou um conflito interno. Ela explica que esse foi o ponto central para a representação atual do espetáculo. “A partir dessa questão, surgiu a necessidade de encarar-se de frente e debochar do que se vê. Surgem dores profundas, discussões, e um apalavra que não sai. Não consegue sair.“
Situada inicialmente pela realidade do território da Penha, Zona Norte do Rio, a apresentação solo da artista faz surgir o que ela classifica de “barricada”. Uma trincheira criada para interditar o acesso à artista. É a necessidade de passar sem ser visto, uma analogia ao famoso termo “passar batido” e representação máxima de que, mesmo em risco, a vida segue e é preciso prosseguir mesmo em situações de pânico. Nesse momento da apresentação, apenas o corpo se integra à transição.
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Questionamentos dos conceitos de medição e enquadramento
No decorrer da performance, a artista utiliza a dança para questionar conceitos de medição e enquadramento. Uma representação é realizada para debater até que ponto o corpo cabe em determinado local. Primeiro, uma tentativa de se enquadrar. Depois, uma medição sobre se as pessoas ainda cabem na construção da artista.
A apresentação também faz referência, por meio do surgimento de saias e da coreografia com giros, ao grupo folclórico de Lagartos/SE ASFLAG Parafusos. Eles mantêm viva a tradição dos escravizados que furtavam anáguas e rendas das sinhazinhas, para assombrar as pessoas, com o intutito de fugir para quilombos e possibilitar a fuga de outros escravizados.
Vários estilos musicais populares sustentam a obra
Toda a obra é mediada musicalmente por sons que passam pelas batidas de funk, pelo brega, atabaques do candomblé, vozes das mulheres chamadas lavadeiras. Além destes, podemos perceber a melodia do surdo 1 da Estação Primeira de Mangueira. A música é variada no decorrer do espetáculo, seja por velocidade ou ritmo. Isto faz Nyandra transportar entre lugares físicos e abstratos e transitar por territórios, estados, continentes. Estes elementos mexem profundamente com as intensidades da artista.
Ela afirma que o espetáculo terá interpretações diferentes a partir das próprias experiências de vida. “As expressões faciais e corporais nesta performance são o que fazem as coisas se tornarem individualmente inteligíveis. Cada pessoa, dentro de sua perspectiva, entende o que é dito de uma forma, e cria sua narrativa. Isto vale para o que está sendo mostrado, gargalhadas profundas e altas, lágrimas que escorrem pelos olhos e constrangimento“.
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Ficha técnica
Idealização, Direção e Intérprete: Nyandra Fernandes
Direção de Movimento: Bellas
Dramaturgia: Maurício Lima
Trilha Sonora: Ana Maga
Figurino: Julia Vicente
Iluminação e operação de luz: Sandro Demarco
Aulas de Dança e Preparação Corporal: Kley Hudson
Operação de áudio: Mar Zenin
Coordenação de Produção: Rafael Fernandes
Produção Executiva: Himiny
Fotógrafo e Designer: Charlles Pereira
Assessoria de imprensa: MercadoCom (Ribamar Filho e Victor Santos)
Costureira: Carol Portugal e Ateliê Aṣọ Iyaafin
Consultoria em Acessibilidade Cultural: Lary Ferreira
Gestão: Quafá Produções
Informações “IRÊ”
Local: Teatro Angel Vianna, Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, r. José Higino, 115, Tijuca
Datas: de 17 a 19 de abril, sexta e sábado às 19h e domingo às 18h
Classificação: livre
Duração: 40 minutos
Ingressos: Compre Aqui




