Com dramaturgia de Rafael Souza-Ribeiro e encenação de Renata Tavares, espetáculo reúne mãe e duas filhas para confrontar memórias, afetos e ressentimentos.
Na noite de Natal, mãe e filhas interrompem a ceia para uma conversa adiada por anos. Pela primeira vez, Maria L´ucia, Marília e Rita, as mulheres da família Soares, encontram tempo para confrontar suas memórias. Assim, dizem o que jamais conseguiram dizer umas às outras. Entre afetos, traumas, ausências e formas de amar e ferir, Mesmo Rio, primeiro romance de Elisama Santos, chega ao palco do Teatro de Arena do Sesc Copacabana. É uma história sensível sobre vínculos familiares, heranças e aquilo que podemos interromper. Rafael Souza-Ribeiro adaptou e Renata Tavares é a encenadora.
A dramaturgia parte dessa matéria íntima, sem tentar simplesmente transportar o romance para o palco. A partir dele, cria um dispositivo próprio para a cena: reúne as três mulheres numa mesma noite e faz deste encontro a ação da peça. A estrutura literária se reorganiza, tempos se sobrepõem, diferentes versões entram em conflito. Assim, aquilo que habita a intimidade das personagens passa a nutrir o jogo entre elas. “O tempo deixa de ser cronológico e a memória invade o presente“, explica. Para Rafael, o contato com Mesmo Rio permitiu aprofundar uma pesquisa dramatúrgica já desenvolvida em torno do melodrama e das relações familiares.
Personagens que não cabem numa definição simples
Aqui, ela passa pela experiência de uma família negra e, especialmente dessas três mulheres. “Interessa-me trabalhar com personagens em toda a sua riqueza e complexidade, escapando de lugares previsíveis e raros. Elas amam, ferem, cuidam, erram e recomeçam. Nenhuma delas cabe numa definição simples“, defende o dramaturgo. Segundo Renata Tavares, este é um dos aspectos centrais da montagem. “A ideia foi fazer com que essas mulheres não fossem julgadas a partir de uma lógica de bem e mal. São seres humanos. E cada pessoa carrega em si a sua bondade e a sua maldade“, afirma a encenadora. Ela foi a primeira mulher negra a receber os prêmios Shell e APTR de Melhor Direção por Nem Todo Filho Vinga.
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Ausência de uma verdade definitiva para deslocar o espectador
A ausência de uma verdade definitiva também desloca o espectador. Em vez de acompanhar a história à procura de quem tem razão, o público é colocado diante de diferentes maneiras de lembrar e interpretar uma mesma vivência. Deste modo, torna-se uma operação particularmente próxima da experiência de Elisama Santos, autora dos best-sellers Educação Não Violenta, Por que Gritamos? e Conversas Corajosas. Ela diz receber relatos de leitores que se reconheceram no romance e chegaram a levá-lo para a terapia. “Espero que as pessoas consigam olhar para as famílias de forma tridimensional. Que consigam perseber que somos mais do que os papéis sociais de mãe, filha e irmã“, destaca a escritora.
Segundo Renata Tavares, a montagem é uma possibilidade de reunir mulheres negras contando histórias complexas e contraditórias. Faz isto sem abrir mão das experiências raciais que atravessam suas trajetórias. “Existe uma luta diária para existir, ser escutada e ocupar determinados espaços“, reforça. Ao mesmo tempo, a encenadora rejeita a ideia de personagens exemplares e sem contradições. “Não me interessa uma construção idealizada dessas personagens. Essa é uma família que existe e que pode ser reconhecida em muitas casas brasileiras“.
Sinopse
Durante uma ceia de Natal, Maria Lúcia e as filhas Marília e Rita finalmente se permitem uma conversa adiada por anos. Ao revisitar a própria história, descobrem que guardam lembranças muito diferentes dos mesmos acontecimentos e umas das outras. Entre feridas, amor, ressentimentos e afetos, Mesmo Rio, a partir do romance homônimo de Elisama Santos, mergulha nas contradições das relações familiares, sem buscar respostas ou apontar uma única verdade.
Ficha Técnica
Dramaturgia: Rafael Souza-Ribeiro
Encenação: Renata Tavares
Elenco: Graciana Valladares, Mila Moura e Sirléa Aleixo
Direção Musical: Ifátókí Maira Freitas
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Jovanna Souza
Figurino: Teresa Abreu
Assistente de direção: Bianka Carrilho
Assistente de figurino: Nayara Pereira
Costureira: Francisca Sabóia
Assessoria de imprensa: Lyvia Rodrigues | Aquela Que Divulga
Mídias Sociais: Camila Monteiro e Lore | Camarujo
Designer gráfico: Ludmila Valente
Fotografia: Renato Mangolin
Produção executiva: Maduh Cavalli
Produção: Marina Dib e Ana Flávia Massadas
Direção de produção: Bárbara Galvão e Fernanda Pascoal | Pagu Produções Culturais
Idealização e coordenação de produção: Bárbara Galvão, Carolina Bellardi e Fernanda Pascoal | Pagu Produções Culturais
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Informações “Mesmo Rio”
Local: Teatro de Arena do Sesc Copacabana, r. Domingos Ferreira, 160, Copacabana
Data: até 18 de outubro, quinta e sexta, às 20h e sábado e domingo, às 18h
Classificação indicatia: 12 anos
Duração: 75 minutos
Ingresso: Na bilheteria




