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“O Beijo no Asfalto” ganha nova montagem com a perspectiva da compaixão

Local:
Centro Cultural do Banco do Brasil Belo Horizonte
Espetáculo Propõe uma Releitura da Tragédia de Arandir Pela Perspectiva da Compaixão

Ao invés de colocar uma lupa nas fake news, Ione Medeiros escolhe contar a tragédia de Arandir sob a ótica da compaixão.

Nesta montagem, o Grupo Oficcina Multimédia não suporta reduzir Nelson Rodrigues a um dramaturgo do escândalo e propõe, em vez disso, atravessar a peça pelo avesso: não pela mentira que a sustenta, mas pelo gesto que a antecede. Tudo começa num homem agonizante, caído no asfalto, e em outro que se ajoelha para beijá-lo. Não há cálculo neste instante, não há plateia, não há testemunha a convencer. Há apenas um corpo que precisa de socorro e um outro que responde. É deste gesto desinteressado, segundo a própria diretora, feito de misericórdia e empatia, que nasce toda a tragédia de Arandir.

No entanto, a cidade não sabe o que fazer com um ato que não cabe em seus códigos e prefere condenar o que não compreende. A partir daí, a engrenagem se põe em movimento: um jornalista fareja escândalo onde havia compaixão, a autoridade policial empresta força a uma suspeita, testemunhas aderem por medo, por interesse e por vontade de pertencer a uma história maior que a própria vida.

Ao mesmo tempo, em casa, a escuta desaba e é talvez o dano mais silencioso de todos. Isto porque a família de Arandir troca a experiência de conhecê-lo pela versão que circula lá fora. O homem que amaram, aos poucos, vira o homem que temem.

A montagem de Ione recusa o cinismo rodrigueano

Mesmo assim, e é aqui que a montagem de Ione recusa o cinismo: Arandir não se retrata. No fim, resta a ele uma certeza que ninguém consegue arrancar: o beijo foi a melhor coisa que fez na vida. É esta frase, pequena e definitiva, o impedimento da peça se fechar como mera crônica de linchamento. Há uma verdade íntima que sobrevive à fabriação pública, e é nela que O Beijo no Asfalto deposita sua esperança.

Na peça, Nelson Rodrigues mostra como uma mentira pública pode destruir uma vida. Ione de Medeiros chama a atenção para o gesto que antecedeu a tragédia: a compaixão que a sociedade não soube reconhecer. Para a diretora, a permanência do texto não vem do escândalo, mas da precisão. “Nelson Rodrigues segue atual por ser ‘muito brasileiro’ e por ‘falar muito a verdade’. Uma verdade que este espetáculo escolhe buscar. Não a fofoca, mas no gesto que ela tentou apagar“, diz Ione.

Informações sobre “O Beijo no Asfalto”

Local: CCBB Belo Horizonte
Data: até 5 de outubro
Mais informações: Clique Aqui

Cristovam Freitas

Meu nome é Cristovam Freitas. Brasileiro, sexagenário, aficcionado por literatura, cinema e principalmente teatro. Tutor de caninos e felinos. Morando em Brasília, mas com o coração enterrado no Rio de Janeiro.

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